D0 ENGENHOSO CAVALEIRO SIR CLIVE SINCLAIR E DE COMO ELE FOI INVENTOR, PIONEIRO, VISIONÁRIO, “MARKETEER” e DEFENSOR ESTRÉNUO DE SUA DAMA, A INFORMÁTICA AO ALCANCE DE TODA A GENTE.


No ano da comemoração do quarto centenário de “0 engenhoso Fidalgo Dom Quixote da la Mancha” apetece dar a este trabalho - que se propõe ser uma homenagem a um homem porventura algo esquecido, ou pelo menos perdido na catadupa incontrolável do avanço das Tecnologias de Informação – um título quiçá anacrónico, mas por isso mesmo escolhido pela analogia dos comportamentos das duas personagens, no seu idealismo, na sua perspectiva visionária, na sua determinação inquebrantável e na sua luta por um mundo melhor, Dom Quixote pela justiça, Sir Clive pela democratização do conhecimento, ambos pela humanidade.

Ambos se bateram corajosamente com os seus “moinhos de vento”, os obstáculos habituais do “status quo”, fossem eles a representação dos cavaleiros do mal, ou o monstro incontornável do realismo económico. Ambos partilhando uma bendita dose de “ingenuidade criativa” mas partilhando também a capacidade de, a cada desaire, responder com uma nova iniciativa, uma nova aventura, com fé inabalável na sua missão, sem recriminações nem arrependimentos.

(Sendo este um trabalho a apresentar no contexto de mestrado de “design” não resisto a marcar uma outra analogia saliente. Os dois davam uma importância peculiar ao “design” dos seus equipamentos. A Dom Quixote parecia perfeitamente adequada a bacia do barbeiro como elmo. Sir Clive metia tecnologia de ponta em caixas de sapatos de cor preta.)

Clive Sinclair nasceu em Surrey, Inglaterra, em 1940, no início da década em que começaram a surgir as volumosas máquinas de computação que ocupavam enormes armazéns e efectuavam operações a velocidades que hoje parecem de caracol. Era filho e neto de engenheiros e teve uma infância tranquila ao lado dos seus dois irmãos mais jovens. A sua educação secundária sofreu alguma turbulência com mudanças de escola frequentes devido às dificuldades económicas que o pai atravessou nessa época, mas foi sempre um aluno brilhante sobretudo nas áreas preferidas da Matemática e da Física.
Definitivamente a Matemática era o seu verdadeiro hobby. Ainda adolescente desenhou uma calculadora de cartões perfurados apoiada na linguagem binária, que ele, durante algum tempo acreditou ter inventado. Por essa altura fez também a descoberta do novel mundo da electrónica. Com a sua extraordinária capacidade de envolvimento intenso nos assuntos que o interessavam, cedo começou a desenhar circuitos refinados, usando componentes cada vez mais minúsculos.
Recusou a Universidade. Achava que aquilo que de facto lhe interessava aprender, podia descobrir sozinho. Começou a dar-se conta do preço reduzido dos componentes quando comprados em quantidade, e de que para vender em grande era necessário pensar e investir em grande. Para isso precisava de dinheiro que obteve trabalhando, escrevendo e editando em revistas populares da especialidade. Juntou à novidade dos seus produtos um conceito inovativo de “marketing” agressivo que mais tarde refinaria na sua escolha de veículos de venda e distribuição.
Finalmente fundou a SINCLAIR Radionics em 1961 no negócio de amplificadores incrivelmente miniaturizados que fizeram um tremendo sucesso. Logo a seguir lançou a primeira calculadora verdadeiramente de bolso que vendeu milhões em exportação.
Mas Sinclair não estava isento de solavancos e na sequência de dificuldades com os seus fornecedores atravessou um período financeiramente difícil.

Porém Sinclair havia já estabelecido uma reputação que lhe valeu o suporte oferecido pelo National Enterprise Board, que era também uma entidade inovadora com o conceito do “Venture Capital” que na altura dava os primeiros passos. Mas esse suporte teve um preço que foi a sua demissão da responsabilidade executiva que ficou nas mãos do próprio NEB.

Estava-se em1979 e começava a surgir o conceito do “personal computer” proposto por marcas como a Commodore, a Tandy e a Apple. A Commodore oferecia o seu por 700 libras. máquinas que se usavam em empresas, laboratórios e estabelecimentos comerciais. O conceito de computador em casa era uma extravagância. Sinclair achou que era a sua oportunidade e entrou no mercado com a SINCLAIR RESEARCH determinado a criar uma máquina verdadeiramente popular e com um preço imbatível.
O “finantial Times” previa à época que em cinco anos os preços baixariam exponencialmente. Sinclair resolveu conseguir isso em meses.
O ZX80, o menor e mais barato computador do Mundo, foi exibido em Wembley em Janeiro de 1980. Vendia-se em kit por 99,95 libras, um preço e uma dimensão só possíveis porque a máquina era radicalmente revolucionária com um número de componentes muito menor e ideias inovativas em termos de ecrã e de memórias. Sinclair tinha em mente o cliente comum que gostasse de aprender a programar computadores. A questão era como persuadir esse cliente que associava a ideia de computador a algo remoto, sobre protegido, para especialistas?
Mas o sucesso ultrapassou as expectativas. Finalmente qualquer bolsa podia ter acesso a um equipamento de espantosas possibilidades.
No começo de 1981 foi lançado o ZX81 e anunciada para breve uma impressora.

Sinclair organizou um pacote especial para escolas incluindo o ZX81 e a impressora (ainda só prometida) por 90 libras. 2300 Escolas compraram o pacote. Imagine-se que, nos nossos dias, passados 25 anos, muitas escolas da nossa terra esperam ainda por um computador!
Isso traz-nos ao impacto do ZX em Portugal. A organização de Sinclair era meramente de “assembling” com peças compradas de várias procedências, entre as quais um dos grandes fornecedores era a TIMEX, uma Empresa americana de relógios mecânicos. Ora a TIMEX tinha uma fábrica em Portugal cujo Director Geral era António Gomes, um homem dinâmico e de visão. O Presidente da TIMEX internacional era o Sr. Fred Olsen que foi apresentado a Sinclair por um banqueiro. Os interesses de ambos eram extraordinariamente complementares. Fred Olsen procurava novas oportunidades de investimento, e possibilidades de diversificação perante a ameaça japonesa ao seu negócio de relógios. Sinclair precisava de capital e de uma base de produção versátil, próxima e ela própria imaginativa. Fred Olsen desafiou António Gomes a virar-se para a eletrónica. António Gomes não hesitou. Precisava de encontrar um Agente dessa mudança fundamental. Encontrou-o na pessoa de Álvaro Oliveira, engenheiro electrónico, doutorado pelo University College, Londres, em 1978 que na altura estava para sair dos CTT (a grande Empresa de Comunicações do tempo), que aceitou o desafio, analisou o “Business Plan”, visitou a Fábrica de Dundee da TIMEX, contratou um excelente grupo de engenheiros que prontamente se aplicou na produção optimizada das máquinas que se vendiam como pão quente, com o nome de Spectrum/Sinclair na Europa e de Timex nos Estados Unidos. De um corpo de trabalhadores da ordem das 300 pessoas, a TIMEX PORTUGAL evoluiu para as 1000 pessoas, com uma excelente produtividade e ela própria “criando” e desenvolvendo novas ideias para melhorar o produto. No pico da produção faziam-se dez mil máquinas por dia.

Mesmo quando Olsen vendeu a TIMEX nos Estados Unidos, foi decidido manter a TIMEX Portugal como unidade independente. A popularidade do SPECTRUM no País foi por essa razão maior do que teria sido se a grande maioria dos componentes não fosse aqui produzida, ao que acrescia o grande protagonismo do seu corpo dirigente, que não se limitava à execução, mas também à pesquisa e inovação permanente dos produtos. Citando Álvaro Oliveira “ entretanto começamos a desenvolver ou melhor, a inventar coisas para o Sinclair”. No jornal “Expresso”, de 3 de Dezembro de 2005, é António Dias de Figueiredo, Professor da Universidade de Coimbra e vencedor, em 2005,do prémio “Personalidade do Ano na SI (Sociedade de Informação) ”, que recorda: “É (este prémio) homenagem a uma geração que no início da década de 80 deu os primeiros passos para uma presença portuguesa de primeira qualidade na SI. Uma geração constituída por dezenas de académicos, empresários e políticos que colocou de pé iniciativas como o Minerva (informática no ensino secundário). Foi um projecto com uma visão estratégica e uma capacidade de galvanização que nunca mais vi neste País. Se se tivesse mantido até aos nossos tempos com o seu ritmo inicial, estaríamos hoje na linha da frente dos países europeus mais inovadores e não teríamos quaisquer complexos na comparação com países como a Irlanda ou a Finlândia.”
Nasceu de facto nesse período de relativo desenvolvimento da economia portuguesa, que começava a respirar mais afoita depois das dificuldades e constrangimentos do intervalo tumultuoso que se viveu na segunda metade da década de 70, uma verdadeira “Ala dos Namorados” que impulsionou a Sociedade de Informação quase inexistente à altura. Esse entusiasmo prontamente trasvazou a classe intelectual e dirigente e passou para o domínio público e até para o espaço doméstico.


A disponibilidade de um computador de baixo preço que recebeu muita publicidade gratuita e foi largamente divulgado pela imprensa, não só por ser fabricado em Portugal mas também por força do protagonismo dessa “Ala de Namorados”, criou condições para o surto de muitas “vocações informáticas” e abriu novas avenidas em termos de oportunidades de emprego.

Consta que, há tempos, numa reunião com a presença de Bill Gates, alguém fazia a apologia da Microsoft e dele Bill Gates como progenitor do PC. Gates declinou esse papel e afirmou que quem produziu a mudança cultural e industrial que levou o computador para casa fora de facto Sinclair e a TIMEX.

Clive Sinclair teve inúmeras ideias, umas melhores do que outras. Mas a sua grande contribuição está de facto na criação do catalizador dessa “MUDANÇA CULTURAL” que Bill Gates refere e que acelerou a SI à escala global, multiplicando factores de desenvolvimento e democratizando o conhecimento e a literacia informática. Com consequências incomensuráveis para a humanidade.

O seu exemplo felizmente encontrou outro paladino nos nossos dias. Nicholas Negroponte e um grupo de tecnogurus (expressão de “The Economist”) lançaram na Suiça a campanha do OLPC (one laptop per child) em Janeiro do ano corrente, propondo-se criar um computador para vender por menos de $ 100, para chegar à mão de cada criança, nomeadamente nas partes mais pobres do Mundo. Parecia uma ideia “quixotesca”. Mas a verdade é que o primeiro protótipo foi já apresentado em Novembro. Como é possível esse preço? Temos de novo o efeito Sinclair. Uma combinação inteligente de tecnologias existentes com processos e caminhos novos. Sem disco rígido, alimentado por baterias ou manivela (!), sem dobradiças dispendiosas.

O preço não chegou ainda aos cem dólares mas está muito perto. cinco países em desenvolvimento fizeram já encomendas de milhões. E alguns fabricantes de “hardware” mostram já preocupação…

Esta será uma outra contribuição gigantesca para a luta contra a pobreza e a iliteracia.

D. Quixote e Sir Clive Sinclair não desdenhariam apadrinhá-la.

Ana Prudente, 2005